sábado, 12 de agosto de 2017

DEUSA MÃE

Uma deusa mãe (ou deusa-mãe) é uma deusa, amiúde representada como a Mãe Terra; é representada como deidade de fertilidade geralmente sendo a generosa personificação da Terra. Como tal, nem todas as deusas podem considerar-se manifestações da Deusa Mãe.

O termo refere-se a um mito universal de divindade feminina relacionada à Natureza, aos ciclos, à fertilidade, e seu culto remonta ao início da história humana, como pode ser observado nas retratações de Vênus da Pré-história. O culto à Deusa Mãe foi observado inicialmente na Pré-história (Paleolítico e Neolítico), aonde foram encontradas estatuetas de culto, estendendo-se ao reino da Frígia, aonde ficou mais conhecida como Cibele, e daí à civilizações grega, romana, egípcia e babilônia aonde consolidou-se um enorme panteão de deusas.

A existência do culto em várias culturas não-frígias evidencia no entanto que Cibele é tão-somente a manifestação local desta divindade, a qual era identificada, entre os gregos, à deusa Réia.

Estudos apontam que a ascensão do patriarcado, iniciada com os hebreus, na religião fez com que a tradição de adoração à Deusa se tornasse ameaçadora à consolidação do poder pelos homens. Alguns ramos do cristianismo, tais como o Catolicismo Romano, e a ortodoxia consideram Maria, como uma mãe espiritual, cumprindo um papel materno, e vista como uma força protetora e intercessora, porém ela não é adorada como uma "Deusa-Mãe".

Esta deusa é representada nas tradições ocidentais de muitas formas, das imagens talhadas em pedra de Cibele a Dione, deusa invocada em Dodona, junto com Zeus, até finais da época clássica. Entre os hinos homéricos (séculos VII-VI a.C.) há uma dedicação à Deusa Mãe chamado «Hino a Gea, Mãe de Todo». Os sumérios escreveram muitos poemas eróticos sobre a deusa mãe Ninhursaga.

Controvérsia

As deidades que se encaixam na moderna concepção de deusas mães tem sido claramente adoradas em muitas sociedades até a atualidade. James Frazer (autor de O Ramo Dourado) e aqueles a quem influenciou (como Robert Graves e Marija Gimbutas) avançaram a teoria de que todo o culto na Europa e Egeu que incluiu qualquer tipo de Deusa Mãe tinha origem nos matriarcados neolíticos pré-indoeuropeus, e que as diferentes deusas de localidades distintas eram equivalentes.

Ainda que esta idéia tenha tido boa aceitação como categoria útil para a mitografia, a idéia de que na antiguidade se cria que todas estas deusas eram intercambiáveis, tem sido objeto de estudo de diversos autores,como James Frazer, J.J. Bachofen, Joseph Campbell, James Melaart, Merlin Stone, Jane Ellen Harrison, Marija Gimbutas, Walter Burkert, entre muitos outros.

Perspectiva  não cristã

A arqueologia pré-histórica, como por exemplo no sítio de Çatalhüyük, e a mitologia pagã registram esta origem do culto à Deusa Mãe e do ocre vermelho. As mais recentes descobertas de uma religião humana remontam, inicialmente, ao culto aos mortos (300.000 a.C.) e ao intenso culto da cor vermelha ou ocre associado ao sangue menstrual e ao poder de dar a vida. Na mitologia grega, a chamada mãe de todos os deuses, a deusa Réia (ou Cibele, entre os romanos), exprime este culto na própria etimologia: réia significa terra ou fluxo.

O acadêmico Joseph Campbell argumenta que Adão --do hebraico אדם relacionado tanto a adamá ou solo vermelho ou do barro vermelho, quanto a adom ou vermelho, e damsangue-- foi criado a partir do barro vermelho ou argila.

A identidade da religião com a Mãe Terra, a fertilidade, a origem da vida e da manutenção da mesma com a mulher, seria, segundo Campbell, retratada também na Bíblia ...a santidade da terra, em si, porque ela é o corpo da Deusa. Ao criar, Jeová cria o homem a partir da terra [da Deusa], do barro, e sopra vida no corpo já formado. Ele próprio não está ali, presente, nessa forma. Mas a Deusa está ali dentro, assim como continua aqui fora. O corpo de cada um é feito do corpo Dela. Nessas mitologias dá se o reconhecimento dessa espécie de identidade universal.

Diversos autores modernos analisam a estória da criação do GÊNESIS sob uma perspectiva não-cristã a qual seria definir a Bíblia como uma narrativa alegórica sobre a divindade hebraica Yavé suplantando a Deusa mãe, representada pela árvore da vida, e a religião hebraica suplantando este culto. Isto é demonstrado na passagem sobre a origem do pecado em que o conhecimento proibido relaciona-se a sexo, sexualidade, e reprodução, especialmente o conhecimento de que os homens participam da reprodução e que a estória descreve o processo pelo qual sociedades matriarcais tradicionais foram substituidas por sociedades patriarcais .

Diversos autores discutem sobre várias religiões do Oriente Próximo, muitas das quais representavam a Deusa mãe por uma serpente e outras por uma simbologia de comunhão realizada pelo ato de comer uma fruta de uma árvore que crescesse perto do altar dedicado à Deusa. Estas deusas, primeira e única

Deusa Criadora, também representava o Conhecimento, a Criatividade Humana, sexo, sexualidade, reprodução, novos ciclos e/ou Destino.
Gênesis e Enuma Elish
São várias as similaridades entre a história da criação no Enuma Elish e a história da criação no Livro do Gênesis. O Gênesis descreve seis dias de criação, seguido de um dia de descanso, enquanto que o Enuma Elish descreve a criação de seis deuses e um dia de descanso.

Em ambos a criação é feita pela mesma ordem, começando na Luz e acabando no Homem. A deusaTiamat é comparável ao Oceano no "Gênesis", sendo que a palavra hebraica para oceano tem a mesma raiz etimológica que Tiamat .

Exemplos de deusas mães

Não há disputas sobre fato de muitas culturas antigas adorarem deidades femininas como parte de seus panteões que encaixam com a concepção moderna de «deusa mãe». As seguintes são exemplos:
Pelasgos
Eurínome foi a princípio o protótipo da Deusa Mãe Criadora grega e a mais importante divindade dos pelasgos, o povo que ocupou a região da Grécia em tempos pré-históricos antes da invasão jônica e dórica. Após a ascensão do patriarcado, Eurínome foi injustamente rebaixada aos status de amante de Zeus, e de Criadora passou a ser considerada apenas uma titanide filha de Oceano e Tétis. Todavia, mesmo na versão patriarcal da mitologia grega, Eurínome e seu consorte Ofion reinaram sobre o monte Olimpo até serem derrotados por Réia e Cronos.

Deusas sumérias, mesopotâmicas e gregas

Tiamat na mitologia suméria, Ishtar (Inanna) e Ninsuna na caldeia, Asherah em Canaã, Astarté na Síria e Afrodite na Grécia, por exemplo.

Elam

Uma das mais importantes figuras do panteão foia deusa Pinikir um nome com cognatos encontrado em outros sistemas de crença de povos desta região. "O fato de que a precedência foi dada a uma deusa, a qual estava acima dos demais deuses do panteão elamitas, indica que os devotos elamitas seguiam o matriarcado nesta religião... No terceiro milênio, estas deusas exibiam um indiscutível poder à frente do panteão elamita" 

Deusas celtas

A deusa irlandesa Anann, às vezes conhecida como Dana, tem um impacto como deusa mãe, a julgar pelo Dá Chích Anann cerca de Killarney (Condado de Kerry). A literatura irlandesa nomeia a última e mais favorecida geração de deuses como ‘o povo de Danu’ (Tuatha de Dannan), Ceridween.
Deusas nórdicas
Entre os povos germânicos provavelmente foi adorada uma deusa na religião da Idade de Bronze Nórdica, chamada por Jörð que mais tarde foi conhecida como Nerthus na mitologia germânica, e que possivelmente seu o culto persistiu no culto a Freya da mitologia nórdica. Sua equivalente na Escandinávia era a deusa aclamada por "natureza" Jörð e o deus dos mares e da fertilidade Njörðr. Jord possui diversos aspectos parecidos com as outras Deusas, como por exemplo seu nome no Islandês que é Gyðia e quer dizer "Deusa".

Deusas gregas

Nas culturas do Egeu, Anatólia e no antigo Oriente Próximo, uma deusa mãe foi venerada com as formas de Cibeles (adorada em Roma como Magna Mater, a ‘Grande Mãe’), de Gea e de Rea.
As deusas olímpicas da Grecia clássica tinham muitos personagens com atributos de deusa mãe, incluindo Hera e Deméter.

A deusa minoica representada em achados arqueológicos como selos ou outros restos, a quem os gregos chamavam Potnia Theron, ‘Senhora das Betas’, muitos de cujos atributos foram logo absorvidos também por Artemisa, parece haver sido um tipo de deusa mãe, pois em algumas representações amamenta os animais que carrega.

A arcaica deusa local adorada em Éfeso, cuja estátua de culto era adornada com colares e cintos sobre os quais colocavam protuberâncias redondas, mais tarde identificada pelos gregos como Artemisa, foi provavelmente também uma deusa mãe.
A festa de Anna Perenna dos gregos e romanos no Ano Novo, sobre o 15 de março, cerca do equinócio do inverno, pode haver sido una festa da Deusa Mãe. Dado que o Sol era considerado fonte de vida e alimento, esta festa também se assemelhava com a Deusa Mãe.
Deusas romanas
A equivalente de Afrodite na mitologia romana, Vênus, foi finalmente adotada como figura de deusa mãe.

Era considerada a mãe do povo romano, por ser a de seu ancestral, Eneias, e antepassado de todos os subsequentes governantes romanos.

Na época de Júlio César era Vênus Genetrix (‘Mãe Venus’).
Magna Dea é a expressão latina para ‘Grande Deusa’, e pode aludir a qualquer deusa principal adorada durante a República ou Império romanos.

O título Magna Dea podia aplicar-se a uma deusa a origem de um panteão, como Juno ou Minerva, ou a uma deusa adorada monoteísticamente.
Deusas mães túrquicas siberianas
Umai, também conhecida como Ymai o Mai, é a Deusa Mãe dos turcos siberianos. Se representa com sessenta tranças douradas, que parecem raios de sol. Acredita-se que uma vez foi idêntica a Ot dos mongóis.

Deusas Afro-Brasileiras (Orixás)

Iemanjá, Oxum, Iansã e outras Deusas Mães compõem o panteão de Orixás das religiões Afro-brasileiras, e cada uma delas responde por um aspecto da natureza, da vida das pessoas, etc.

Existem muitas particularidades em cada uma delas, mas algumas em especial podem manipular o tempo, o espaço, os elementos etc.

Tanto no Candomblé como na Umbanda as Deusas Mães possuem um papel primordial, e para muitos fiéis, vai além das Divindades Masculinas, pois são "adotados" e se tornam "filhos" delas.

Conceitos de deusas mãe no hinduísmo

A deusa Durga é considerada como a deusa mãe suprema por alguns hindus.
No contexto hinduista, o culto a a Deusa Mãe pode seguir se até as origens da cultura védica, e talvez mais além.

Rig Veda chama o poder divino feminino Mahimata, um termo que significa literalmente ‘Mãe Terra’.

Em alguns lugares, a literatura védica alude a ela como Viraj, a mãe universal, como Aditi, a Mãe dos Deuses, e como Ambhrini, a nascida do Oceano Primordial. Durga representa o poder e a natureza protetora da maternidade.

Uma encarnação de Durga é Kali, que nasceu de sua frente durante a guerra (como meio para derrotar o inimigo de Durga, Mahishasura). Durga e suas encarnações são especialmente adoradas em Bengala.

Atualmente, Devi é considerada em múltiplas formas, todas representando a força criativa do mundo, como Maya e prakriti, a força que galvaniza a raíz divina da existência em autoproteção como o cosmos. Não é, pois, meramente a terra, inclusive apesar de esta perspectiva seja coberta por Párvati (a encarnação previa de Durga). Todas as diversas entidades femininas hinduístas são consideradas como muitas facetas da mesma divinidade feminina.
Conceito de deusa mãe no paganismo
As religiões pagãs são, no ocidente, aquelas que mais focalizam os cultos em uma Deusa Mãe.

Na religião Wicca acredita-se em uma força superior, a Grande Divindade, de onde tudo veio.
Essa força superior é adorada sob a forma de duas divindades básicas: a Grande Mãe e o Deus Cornífero.

Esse Casal Divino representa todos os demais deuses das diversas mitologias adotadas pelos wiccanos. Como algumas tradições wiccanas seguem uma infinidade de Deusas e Deuses, a crença pagã é que todas essas deusas e todos esses deuses são aspectos diferentes da Grande Deusa e do Grande Deus.

Daí o ditado da Wicca que diz que "Todas as deusas são uma Deusa e todos os deuses são um Deus (Dualidade cósmica).

A Deusa Mãe é a geratriz de Todo o Universo e de tudo o que ele contém, daí a frase: Tudo vem da Deusa e tudo para ela retorna.
Uma conseqüência do culto à Deusa Mãe na Wicca é a super-valorização da natureza, justificada pela sua ligação à Terra, na forma de Gaia.

Além da Terra, outro símbolo muito importante da Deusa é a Lua, onde se manifesta de três maneiras, na forma de Deusa Tríplice, sendo a Lua Cheia associada ao seu aspecto de Deusa Mãe.

Uma questão que muitas vezes se levanta na Wicca é se A Deusa é mais importante do que O Deus. O que se pode dizer é que é uma discussão inócua. A Deusa e O Deus são de igual importância na Wicca. Embora pareça haver mais enfoque à Deusa, as duas divindades básicas da Wicca são complementares. Não há hierarquia entre elas.


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